A Nação Shinnecock

Atualizado: Mar 29

Atenção! A postagem pode conter spoilers sobre os livros anteriores da série Amores em Kent!


Aqui começa a minha ousadia de falar sobre os nativos que escolhi como povo para Hurit, nossa mocinha do livro seis da série Amores em Kent. O Sobrevivente e a Princesa conta a história do último irmão McFadden, Emile, que estava desaparecido até o final do livro cinco. Para quem leu os epílogos, descobriu que ele foi encontrado por uma mulher e levado para sua tribo, em região bem próxima de onde desapareceu.


Escolhi os Shinnecocks por dois motivos: 1) eles estavam, em 1899, localizados em Long Island, e era possível que Emile aparecesse boiando no oceano exatamente onde fica o território do povo. E 2) eles não foram exilados para o centro-oeste como a maior parte das tribos do leste, uma vez que negociaram sua permanência ali desde 1640, logo que os ingleses começaram a se estabelecer no que, posteriormente, seriam os Estados Unidos da América.


Há bastante coisa sobre o povo, hoje, inclusive é possível encontrar notícias recentes principalmente em razão da localização do território: eles são vizinhos dos Hamptons, uma das regiões mais elitizadas de Long Island, onde praticamente todo milionário novaiorquino tem uma casa de “férias”.


Imagem do “monumento” construído nas terras da Nação Shinnecock que vem incomodando os outros moradores dos Hamptons.


Mas não tem tanta coisa assim sobre os povos indígenas em períodos determinados, principalmente pelo apagamento da história desses povos, causado pelo colonizador. O inglês chegou por lá e os rotulou de selvagens, chamou-os de índios e as missões cristãs trataram de colocar todas as crianças nativas em escolas onde a cultura tradicional de seus povos era ignorada e tratada como folclore ou lenda.


Durante as pesquisas, cheguei a encontrar um livro muito útil no Google Play Livros, cujo nome é Legends and Lore from the North Shore, escrito por Peter Muise, que trata a crença dos povos nativos da região como “lendas”. É assim que nós, os colonizadores, desqualificamos a tradição e a cultura dos povos que já habitavam as Américas quando chegamos. Isso me deixa bastante incomodada e, por isso, venho tentando não me utilizar de palavras tipicamente coloniais (indígenas, lendas, folclore, etc) no livro!


Capa do livro que tenho usado para me inspirar sobre as tradições, sobre a espiritualidade e sobre os deuses dos povos do North Shore de Massachussets.


O território hoje ocupado pelos Shinnecocks foi sendo definido ao longo do tempo. Em 1641, os ingleses assinaram uma espécie de leasing com o povo. Esse documento foi retificado em 1703 para, certamente, incluir mais terra para os colonizadores. Em 1792, o estado de Nova Iorque considerou que os Shinnecocks possuíam “trusteeship” sobre a terra – o que, por minhas pesquisas acerca desse documento legal, sugerem que a terra pertenceria ao estado mas todo o direito sobre ela pertenceria ao povo Shinnecock. Seria uma dissociação entre propriedade (dominus) e posse, esta última exercida pelo povo nativo com total direito de exploração e uso. Como não me aprofundei neste detalhe (ele não é relevante para o desenvolvimento da história), posso estar equivocada quanto à natureza jurídica do documento.


O povo Shinnecock pode eleger representantes para falar por eles perante o estado. No Século XVIII, eram esses representantes (os trustees) que negociavam com os fazendeiros locais em nome das tribos. Apesar das idas e vindas e dos casamentos interraciais (com os colonizadores e com os negros que foram trazidos como escravizados), os Shinnecock fizeram de tudo para manter sua cultura e seu território. Em 2010, eles foram reconhecidos como nação pelos Estados Unidos da América.


O território em que eles vivem é chamado de Shinnecock Nation Reservation oficialmente, porém há divergência sobre ser ou não uma reserva. Como foram reconhecidos como uma nação, os representantes Shinnecock afirmam que eles vivem em um território e que seu governo é autônomo, portanto, o nome reserva seria incorreto.



Localização do território Shinnecock em Long Island, Nova Iorque.


O território Shinnecock possui a extensão de 800 acres e fica em uma península, garantindo total acesso ao mar. Para os povos nativos, a terra é parte de sua identidade, que continua sendo colocada em risco todo dia – os que viviam em Long Island foram reduzidos a um pequeno número e confinados em pequenos territórios. A maior parte das famílias da Nação Shinnecock vivem abaixo da linha da pobreza (60%, aproximadamente) e as tentativas do governo de modificar essa situação não beneficiaram a tribo como um todo, além de sofrer oposição veemente dos endinheirados que possuem casas nos Hamptons.


Em verdade, minhas pesquisas me conduziram a uma realidade nada diferente da nossa. Enquanto no Brasil as terras reservadas aos povos nativos estão em constante ataque, assim como a legitimidade desses povos em manterem suas identidades e culturas, além da enorme pobreza que os assola, nos Estados Unidos a situação é bem parecida. Os povos foram massacrados, dizimados e aculturados pelo colonizador. Foram confinados em reservas e sofrem violações frequentes de seus direitos, incluindo a própria deslegitimação dos indivíduos como sujeito de direitos. Esso não é uma realidade nossa, mas uma realidade de todos os povos nativos das Américas.


Fontes desse texto:

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